13/01/2016

O Engano Pré-milienista (Brian Schwertley) - Parte I

O Quiliasmo examinado à luz das Escrituras, por Brian Schwertley

Neste estudo, Brian Schwertley, discorre sobre o pré-milenismo, que segundo ele não era crido pela igreja até o final do século XIX. De acordo com Schwertley, somente em 1905, tornou-se uma "verdade", embora contradiga os evangelhos e epístolas.

Traduzido do artigo original em inglês, pelo autor deste Blog, em janeiro de 2016

Contradições Pré-milenistas

A visão escatológica predominante no século XX entre os cristãos que creem na Bíblia é a pré-milenista. Pré-milenismo é a visão de que após Sua segunda vinda, Jesus Cristo governará a Terra por mil anos. Portanto, a Segunda Vinda de Cristo é antes do milênio (pré-milenismo). Pré-milenistas ensinam que, na segunda vinda de Jesus, os santos que estiverem vivos serão arrebatados e os santos que já morreram serão ressuscitados dos mortos. Que todos eles receberão um corpo glorificado e imortal, encontrar-se-ão com Cristo nos ares e retornarão para governar, com Ele, a Terra por um período de mil anos onde haverá paz e justiça em escala mundial.

Ao final deste período, Satanás será solto de sua prisão para enganar as nações. Numerosos exércitos rebelar-se-ão e atacarão Cristo e os Santos em Jerusalém, mas serão destruídos por fogo vindo do Céu. Após derrotar os exércitos rebeldes acreditam que virá a ressurreição o Juízo Final e então a eternidade. Isto é, em resumo, a essência do pré-milenismo; porém há muitas variantes dela. Dentre os pré-milenistas há os pré-tribulacionistas, os meso e os pós-tribulacionistas. Pré-milenistas dispensacionistas colocam o arrebatamento não na segunda vinda mas, no início dos sete anos da Grande Tribulação.

  • O mito da interpretação literal vs. não-literal
  • Os pré-milenistas argumentam que se atém a uma interpretação literal das Escrituras enquanto acusam seus oponentes teológicos (como os pós-milenistas) de tendenciosamente espiritualizar textos proféticas. Mas a verdade é que tanto pré-milenistas quanto amilenistas e pós-milenistas acreditam que as Escrituras devem ser interpretadas literalmente em alguns momentos e figurativamente em outros, dependendo do contexto do texto e da intenção do autor. Autores pré-milenistas dizem aos seus leitores que interpretam a Bíblia literalmente, mas, se você ler seus livros, cenas que na Bíblia ocorrem com arcos, flechas e cavalos transformam-se nos livros em batalhas futurísticas com blindados, helicópteros e aviões. A marca da besta transforma-se em um chip de computador ou um código de barras. Gafanhotos vindos do Abismo supostamente transformam-se em helicópteros de ataque e assim por diante. Algum autor ou comentarista pré-milenista que acredite que a Besta que surge do mar com sete cabeças e dez chifres seja uma criatura literal? A questão é que pré-milenistas, amilenistas e pós-milenistas interpretam algumas passagens bíblicas figurativamente e outras literalmente.

    A única forma de determinar quem detém a melhor interpretação é lançar mão de alguns princípios bíblicos de interpretação ao examinar as passagens em questão. O que significa dizer que o contexto, o público a quem se destina a mensagem, a intenção do autor, o tempo em que foi escrito, etc, devem ser considerados. Além do mais, a Escritura não pode contradizer a Escritura, portanto, quando duas passagens parecem se conflitar, a passagem mais esclarecedora deve ser usada para interpretar a menos evidente. Esse princípio é muito importante uma vez que há muitas passagens esclarecedoras no Novo Testamento sobre a Segunda Vinda de Cristo.

    O Pré-milenismo é baseado em uma interpretação literal do capítulo 20 de Apocalipse.

    E vi descer do céu um anjo, que tinha a chave do abismo, e uma grande cadeia na sua mão. Ele prendeu o dragão, a antiga serpente, que é o Diabo e Satanás, e amarrou-o por mil anos.

    E lançou-o no abismo, e ali o encerrou, e pôs selo sobre ele, para que não mais engane as nações, até que os mil anos se acabem. E depois importa que seja solto por um pouco de tempo. E vi tronos; e assentaram-se sobre eles, e foi-lhes dado o poder de julgar; e vi as almas daqueles que foram degolados pelo testemunho de Jesus, e pela palavra de Deus, e que não adoraram a besta, nem a sua imagem, e não receberam o sinal em suas testas nem em suas mãos; e viveram, e reinaram com Cristo durante mil anos.

    Mas os outros mortos não reviveram, até que os mil anos se acabaram. Esta é a primeira ressurreição. Bem-aventurado e santo aquele que tem parte na primeira ressurreição; sobre estes não tem poder a segunda morte; mas serão sacerdotes de Deus e de Cristo, e reinarão com ele mil anos.

    E, acabando-se os mil anos, Satanás será solto da sua prisão, E sairá a enganar as nações que estão sobre os quatro cantos da terra, Gogue e Magogue, cujo número é como a areia do mar, para as ajuntar em batalha.

    E subiram sobre a largura da terra, e cercaram o arraial dos santos e a cidade amada; e de Deus desceu fogo, do céu, e os devorou.

    E o diabo, que os enganava, foi lançado no lago de fogo e enxofre, onde estão a besta e o falso profeta; e de dia e de noite serão atormentados para todo o sempre. E vi um grande trono branco, e o que estava assentado sobre ele, de cuja presença fugiu a terra e o céu; e não se achou lugar para eles. E vi os mortos, grandes e pequenos, que estavam diante de Deus, e abriram-se os livros; e abriu-se outro livro, que é o da vida. E os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras.

    E deu o mar os mortos que nele havia; e a morte e o inferno deram os mortos que neles havia; e foram julgados cada um segundo as suas obras. E a morte e o inferno foram lançados no lago de fogo. Esta é a segunda morte. E aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo. (Apocalipse 20:1-15)

    A muitos pré-milenistas é dito que fundamentalistas creem no Pré-milenismo, enquanto que teólogos liberais são pós-milenistas. O que muitos pré-milenistas não sabem é que a visão dominante entre os cristão protestantes advindos da Reforma até o final do século XIX era, de fato, a pós-milenista. O pré-milenismo tornou-se dominante em 1909 após a publicação da Bíblia de Referência Scofield. Pré-milenistas geralmente não se dão conta dos sérios problemas teológicos e exegéticos de sua interpretação.

  • O dia do Senhor
  • A posição pré-milenista é que Jesus retornará e os Santos serão ressuscitados, então, depois de mil anos de governar a Terra, virá o Juízo Final e os ímpios serão julgados. Observe que os pré-milenistas acreditam em um intervalo de mil anos entre a segunda vinda de Cristo e o Juízo Final. A ressurreição dos Santos e a ressurreição dos ímpios também são separadas por mil anos. Mas a Bíblia ensina haver um hiato de mil anos entre a segunda vinda de Cristo e o Juízo Final? Ela ensina que haverá um hiato de mil anos entre as ressurreição dos justos e a dos ímpios? Na verdade, não há intervalo entre estes eventos. De fato, como será mostrado, a Bíblia ensina que esse eventos são para ocorrer no mesmo dia. Assim sendo, pré-milenismo é teologicamente e biblicamente impossível.

    Os evangelhos e epístolas apresentam uma fotografia unificada da segunda vinda de Jesus Cristo: a segunda vinda, o arrebatamento, a ressurreição dos justos e ímpios e o juízo dos justos e ímpios ocorrerão no mesmo dia. O apóstolo Paulo ensina que quando Cristo retornar, Ele trará vingança sobre os ímpios. Os ímpios receberão a perdição eterna, mas Cristo habitará com os Santos. Todos o que crê admirar-se-á e glorificará a Cristo. Quando isto irá ocorrer? No "mesmo dia" (singular):

    E a vós, que sois atribulados, descanso conosco, quando se manifestar o Senhor Jesus desde o céu com os anjos do seu poder, Com labareda de fogo, tomando vingança dos que não conhecem a Deus e dos que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo; Os quais, por castigo, padecerão eterna perdição, longe da face do Senhor e da glória do seu poder, Quando vier para ser glorificado nos seus santos, e para se fazer admirável naquele dia em todos os que creem (porquanto o nosso testemunho foi crido entre vós). (2 Tessalonicenses 1:7-10)

    Há intervalo de mil anos entre a perdição dos ímpios e a glorificação do santos? Não, ambos ocorrem "naquele dia". Cristo esmagará os ímpios de Seus trono em Jerusalém? No, Ele aparecerá nos Céus. No derradeiro dia, Cristo virá dos Céus para julgar a todos os homens, sejam justos ou ímpios.

    O galardão dos justos e a punição dos ímpios são entrelaçados entre si e ao tempo; e sucedem imediatamente à segunda vinda do Senhor. Certamente esta passagem deve esclarecer completamente que não há um arrebatamento secreto seguido, em um intervalo de 7 anos, por uma ampla revelação do Senhor e Sua glória ao mundo. Certamente está perfeitamente claro também que uma vez que a vinda do Senhor traz aos ímpios 'perdição eterna longe da face do Senhor', nenhum ímpio sobreviverá a Sua vinda para ser governado em um milênio vindouro. Mas, segundo a ótica pré-milenista, devem haver ímpios sobreviventes.

    O apóstolo Paulo ensina que Cristo retornará a Terra e então estabelecerá um governo milenar que será sucedido por um juízo final? Não, ele não ensina. Paulo diz que a segunda vinda de Cristo e a glorificação dos santos irá ocorrer imediatamente antes da eternidade. Paulo não ensina que haverá um hiato de mil anos entr a segunda vinda e a fim da história humana na Terra:

    Mas cada um por sua ordem: Cristo as primícias, depois os que são de Cristo, na sua vinda. Depois virá o fim, quando tiver entregado o reino a Deus, ao Pai, e quando houver aniquilado todo o império, e toda a potestade e força. Porque convém que reine até que haja posto a todos os inimigos debaixo de seus pés. (1 Coríntios 15:23-25)
    E agora digo isto, irmãos: que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção. Eis aqui vos digo um mistério: Na verdade, nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados; Num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Porque convém que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade, e que isto que é mortal se revista da imortalidade. E, quando isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir da imortalidade, então cumprir-se-á a palavra que está escrita: Tragada foi a morte na vitória. (1 Coríntios 15:50-54)

    Cristo retorna, os santos recebem corpos glorificados e imortais e "então virá o fim". Não há um reino milenar, pois quando Cristo retornar Ele entregará o reino ao Pai. Ademais, depois do retorno de Cristo, a morte será completamente destruída e abolida. Como então podem haver convertidos no milênio que vivem, tem filhos e morrem, se a morte é abolida na segunda vinda?

    O propósito da última parte do capítulo 15 de 1 Coríntios é mostrar que após a ressurreição, os corpos dos crentes serão serão como o glorioso corpo do Filho de Deus, adaptado a condição celestial e não terrena.

    O apóstolo Paulo ensina que justos e ímpios serão julgados no mesmo dia:

    Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus; O qual recompensará cada um segundo as suas obras; a saber:

    A vida eterna aos que, com perseverança em fazer bem, procuram glória, honra e incorrupção; Mas a indignação e a ira aos que são contenciosos, desobedientes à verdade e obedientes à iniquidade; (Romanos 2:5-8)

    Os apóstolos inspirados (pelo Espírito) não dizem coisa alguma sobre um intervalo milenar entre o juízo dos justos e ímpios. A segunda vinda de Cristo é sempre associada, nas Escrituras, ao Juízo Final de todos os homens, que ocorrerá

    No dia em que Deus há de julgar os segredos dos homens, por Jesus Cristo, segundo o meu evangelho. (Romanos 2:16)

    O apóstolo Paulo sempre ensinou em suas epístolas que a segunda vinda de Cristo, a ressurreição dos justos e ímpios ocorreriam no mesmo dia: o dia do Senhor. Ele diz:

    Mas, irmãos, acerca dos tempos e das estações, não necessitais de que se vos escreva; Porque vós mesmos sabeis muito bem que o dia do Senhor virá como o ladrão de noite; Pois que, quando disserem: Há paz e segurança, então lhes sobrevirá repentina destruição, como as dores de parto àquela que está grávida, e de modo nenhum escaparão. Mas vós, irmãos, já não estais em trevas, para que aquele dia vos surpreenda como um ladrão; (1 Tessalonicenses 5:1-4)
    Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para a aquisição da salvação, por nosso Senhor Jesus Cristo, Que morreu por nós, para que, quer vigiemos, quer durmamos, vivamos juntamente com ele. (1 Tessalonicenses 5:9,10)
    Paulo associa a segunda vinda com a ressurreição, a subsequente glória dos santos e a repentina destruição dos ímpios. Sem sombra de dúvidas, aquele dia é tal que os crentes devem esperar vigilantemente (1 Tessalonicenses 5:4-10), pois obterão salvação em toda sua plenitude (v. 9) para então viver "com ele" (v. 10); e tal que levará, a falsa segurança dos descrentes, ao fim, em repentina destruição.
    Paulo não diz ao povo de Tessalônica que um arrebatamento secreto ocorrerá sete anos antes da segunda vinda. O arrebatamento ocorre no mesmo dia que os ímpios são julgados.
    Certamente, Paulo não teria escrito essas palavras se esperasse por um arrebatamento secreto, Não há nesta passagem qualquer indício que cristãos serão arrebatados sete anos antes do dia do julgamento. Ao invés disto, eles receberão alívio da tribulação e do sofrimento da "vingança dos que não conhecem a Deus e dos que não obedecem ao evangelho" (2 Tessalonicenses 1:8).

    Se os cristãos estão para ser secretamente arrebatados da Terra sete anos antes da segunda vinda de Cristo, então por que as Escrituras repetidamente ensina que os cristão permanecerão na Terra até a revelação de Cristo? A ressurreição dos justos e ímpios e o juízo final ocorreção nesmo dia (o dia do Senhor), conforme Mateus 13:47-50; 25:31-34, 41, 46; João 5:28-29; 6:3-40, 44, 54; Romanos 2:5-8, 16; 1 Tessalonicences 5:1-4, 9-10, etc.

    Se os ímpios recebem "repentina destruição" e os santos são glorificados, ninguém é deixado de fora para popular a Terra durante reinado milenar pré-milenista. Depois que os cristãos recebem seus corpos celestiais e glorificados, eles não se casarão nem terão filhos. Quem, então, haverá para rebelar-se contra Cristo ao final dos mil anos do reino milenar? Os santos glorificados certamente não, nem os descrente, pois estarão sofrendo a tormenta no Lago de Fogo.

    O apóstolo Pedro concorda com o ensino de Paulo acerca da segunda vinda de Cristo. Em sua segunda epístola ele trata com escarnecedores que negam a segunda vinda:

    E dizendo: Onde está a promessa da sua vinda? porque desde que os pais dormiram, todas as coisas permanecem como desde o princípio da criação. Eles voluntariamente ignoram isto, que pela palavra de Deus já desde a antiguidade existiram os céus, e a terra, que foi tirada da água e no meio da água subsiste. Pelas quais coisas pereceu o mundo de então, coberto com as águas do dilúvio,

    Mas os céus e a terra que agora existem pela mesma palavra se reservam como tesouro, e se guardam para o fogo, até o dia do juízo, e da perdição dos homens ímpios. Mas, amados, não ignoreis uma coisa, que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia. O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; mas é longânimo para conosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se.

    Mas o dia do Senhor virá como o ladrão de noite; no qual os céus passarão com grande estrondo, e os elementos, ardendo, se desfarão, e a terra, e as obras que nela há, se queimarão. Havendo, pois, de perecer todas estas coisas, que pessoas vos convém ser em santo trato, e piedade, Aguardando, e apressando-vos para a vinda do dia de Deus, em que os céus, em fogo se desfarão, e os elementos, ardendo, se fundirão? (2 Pedro 3:4-12)

    Pedro ensina que a segunda vinda, o dia do julgamento e o começo da eternidade ocorrerá contemporaneamente. Tal como Paulo, Pedro afirma que estes eventos ocorrerão no "dia do Senhor". Porém, de acordo como o pré-milenismo, Cristo não virá no dia do julgamento, pois Ele já estará na Terra governando de Jerusalém. No entanto, Pedro diz que quando Cristo retorna, o julgamento ocorre e então os céus e Terra são destruídos. Portanto, o relato de Pedro sobre a vinda de Cristo contradiz a doutrina pré-milenista.

    Pré-milenistas ensinam que haverá um intervalo de mil anos entre a ressurreição dos justos e a dos ímpios. Ensinam que a ressurreição dos ímpios ocorre ao final do milênio. Porém, parábolas de Jesus contradizem esta visão. Na parábola do Trigo e do Joio, Jesus diz que ambos crescerão juntos até a colheita:

    Deixai crescer ambos juntos até à ceifa; e, por ocasião da ceifa, direi aos ceifeiros: Colhei primeiro o joio, e atai-o em molhos para o queimar; mas, o trigo, ajuntai-o no meu celeiro. (Mateus 13:30)
    Quando Jesus explicou essa parábola a Seus discípulos (Mateus 13:36-43), Ele indicou o tempo em que a colheita aconteceria. Ele disse que a colheita é o fim do mundo e que os ceifeiros são anjos (v. 39). Para evitar qualquer entendimento de uma colheita parcial antes da completa, é utilizada a palavra grega sunteleia (v. 39), que significa consumação e pleno fim. De acordo com Concordância Analítica de Robert Young, sunteleia é usada somente seis vezes no Novo Testamento e sempre referindo-se ao Dia do Julgamento, que é, o fim do mundo... O uso desta palavra grega em cada um dos versos absolutamente impede qualquer possibilidade de justos serem tirados do mundo antes da consumação dos séculos.
    No final, a separação será tal que os ímpios serão lançados no fogo do inferno e os justos irão para o Céu.

    No capítulo 25 de Mateus, Jesus instruiu Seus discípulos acerca da segunda vinda que:

    E quando o Filho do homem vier em sua glória, e todos os santos anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória; E todas as nações serão reunidas diante dele, e apartará uns dos outros, como o pastor aparta dos bodes as ovelhas; E porá as ovelhas à sua direita, mas os bodes à esquerda. Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver. Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te? E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes. Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos; Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; Sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me vestistes; e enfermo, e na prisão, não me visitastes. Então eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos? Então lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim. E irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna. (Mateus 25:31-46)

    Cristo descreveu um julgamento comum a todos os homens, não só aos ímpios. Ele colocou o julgamento final imediatamente após Sua vinda, não mil anos depois.

    O cristão, em geral, acredita que Mateus 25:31-56 é uma fotografia do Juízo Final. E ele está certo. Mas os pré-milenistas tem que explicar essa passagem à parte, uma vez que ela não se encaixa em sua visão profética. Em sua interpretação eles tem que abandonar a literal da qual tanto falam e explicar "todas as nações" não são "todas as nações", e que aquelas nações estão lá, lá estão somente "representativamente". Mas não há nada nesta passagem indicando isto. Está claro que o tema é o universal Juízo Final.

    Jesus claramente ensinou que haverá uma ressurreição universal na qual todos os homens serão ressuscitados no mesmo dia. Ele não diz que apenas alguns serão e o resto mil anos depois (ou 1007 anos, na visão dispensacionalista):

    Não vos maravilheis disto; porque vem a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz. E os que fizeram o bem sairão para a ressurreição da vida; e os que fizeram o mal para a ressurreição da condenação. (João 5:28,29)

    A ideia de que a ressurreição dos justos irá ocorrer mil (ou mil e sete) anos antes do fim do mundo contradiz o que Jesus disse, por mais quatro vezes no capítulo 6 de João:

    E a vontade do Pai que me enviou é esta: Que nenhum de todos aqueles que me deu se perca, mas que o ressuscite no último dia. Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: Que todo aquele que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. (João 6:39,40)

    O último dia é o dia do julgamento. "Claramente não pode haver outros dias depois do último dia.".

    A resposta dispensacionalista a essas objeções é argumentar que haverá um arrebatamento secreto antes da tribulação de sete anos, em que todos os cristãos serão arrebatados da Terra. E, ao longo da tribulação de sete anos, haverá expressiva conversão de judeus. Esses santos do pós-arrebatamento terão filhos e assim originarão novos crentes não-glorificados para uma ressurreição e julgamento universal ao fim do milênio.

    O problema desta visão é que a Bíblia não ensina a ocorrência de um arrebatamento secreto sete anos antes da segunda vinda de Cristo. Em 2 Tessalonicenses 1.5-10, Paulo diz que o dia em que Cristo vier para ser glorificado pelos Seus santos é precisamente o mesmo dia em que Ele retornará ‘em chamas flamejantes’ para julgar os ímpios. Em 2 Tessalonicenses 1.5-10, Paulo conforta os santos da igreja de Tessalônica com a abençoada esperança do alívio que terão juntamente com ele, na ocasião do retorno de Cristo, em chamas flamejantes, a fim de punir aqueles que traziam tribulação à igreja.

    No entanto, de acordo com as suposições dispensacionalistas, essa passagem não pode referir-se à bendita esperança dos cristãos, pois, no pensamento dispensacionalista não há vínculo entre o julgamento punitivo e o retorno de Cristo à Sua igreja, que é o que constitui o arrebatamento secreto.

    Os dispensacionalistas alegam que a "bendita esperança" refere-se ao arrebatamento secreto. No entanto, Paulo coloca a expressão "bendita esperança" em associação com a "gloriosa manifestação" de Cristo, em Tito 2:13. No entender de Paulo, o arrebatamento e a visível e notória segunda vinda de Cristo são concomitantes; e não separados por sete anos. Além disso, 1 Tessalonicences 4:16 explicitamente ensina que o arrebatamento é um evento público, não secreto:

    Pois, dada a ordem, com a voz do arcanjo e o ressoar da trombeta de Deus, o próprio Senhor descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro.

    Se o arrebatamento fosse ocorrer sete anos antes da segunda vinda de Cristo, então, qualquer um poderia calcular o ano, mês e dia de Sua segunda vinda. Mas Jesus disse que "quanto ao dia e à hora" da Sua vinda, ninguém sabe (Marcos 13:32). Não há na Bíblia um vestígio de evidência sequer acerca de um arrebatamento secreto sete anos antes da segunda vinda visível de Cristo. A teoria do arrebatamento secreto não pode ser encontrada na igreja antes de 1830. Após um cuidadoso estudo de todas as citações, palavras e versículos relacionados ao arrebatamento e à segunda vinda, Oswald T. Allis escreveu:

    A questão que nos contronta é essa: se a distinção entre o arrebatamento e o aparecimento é tão grande quanto dizem os dispensacionalistas, então, como explicar o lapso de Paulo em distingui-las claramente? E o lapso de outros escritores como Pedro, Tiago e João? Paulo era versado em lógica e ábil a construir distinções contundentes. Se ele quisesse, ou se fosse importante, distinguir esses dois eventos, ele o teria feito muito facilmente. Por que ele usou uma linguagem que os dispensacionalistas devem admitir ser confusa? Feinberg - um notório erudito dispensacionalista - fez a seguinte afirmação surpreendente acerca disto:

    "Nos concluímos então, a partir estudo em si das palavras gregas que a distinção entre a vinda do Senhor para Seus Santos e com Seus Santos não deve ser aceita. (Premillennialism or Amillennialism? p. 207)"

    Tal aceitação, levanta a questão se a distinção é válida, se é importante, então a linguagem ambígua de Paulo é, assim dizendo com reverência, indesculpável. Mas se a distinção é insignificante, então a precisão da afirmação seria desnecessária. Portanto, concluímos que a linguagem do Novo Testamento, em especial a de Paulo, simplesmente não falha em provar distinção que os dispensacionalistas insistem, mas, ao invés disso, indica clara e inequivocamente que ela não existe.

Continua...

11/01/2016

Jesus à porta do coração?!

Irmão Clóvis, Portal Cinco Solas

Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo. (Apocalipse 3.20)

O versículo de Apocalipse 3:20 é comumente utilizado para comprovar que Jesus está à porta batendo e é o homem que decide abrir ou não a porta. A aplicação feita é sempre em defesa do livre arbítrio do homem, em contraposição à doutrina da graça eficaz, pela qual Deus não apenas dá o desejo como a capacidade de crer nEle. A interpretação arminiana desse versículo é bem expressa na figura de Jesus do lado de fora de uma porta, segurando com uma das mãos uma luz e com a outra batendo em uma porta sem trinco. Uma legenda normalmente informa que a falta de trinco se explica pelo fato de a porta do coração só se abrir pelo lado de dentro.

Vamos estudar esse versículo sob dois aspectos, primeiro de forma isolada e depois em seu contexto e veremos se ele ensina o que alegam ensinar.

O versículo de forma isolada não ensina o livre arbítrio

O versículo coloca Jesus à porta, batendo e falando para que a abram. O que leva alguém abrir a porta é o ouvir a voz dEle. Uma vez aberta a porta, Ele entra na casa e faz uma refeição com quem a abriu. É impossível ir mais longe que isso na interpretação isolada dessa passagem.

É importante notar que palavras como livre arbítrio, vontade, querer e escolha sequer aparecem no texto, embora fique implícito que há duas possibilidade: abrir e não abrir. Mas não há uma declaração positiva a respeito do livre arbítrio nem uma interpretação natural e necessária que requeira isso.

Voltando ao ato condicionante do abrir a porta: o ouvir a voz de Cristo. O texto bíblico não diz "ao ouvir" mas "se ouvir", deixando claro que nem todos ouvem. Na pregação do Evangelho, o ouvir é fator determinante:

Inclinai os ouvidos e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, que consiste nas fiéis misericórdias prometidas a Davi. (Isaías 55:3)
Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos os pés dos que anunciam a paz, dos que anunciam coisas boas! Mas nem todos obedecem ao evangelho; pois Isaías diz: Senhor, quem creu na nossa pregação? De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus. (Romanos 10:14-17)

O fato é que, embora o Evangelho seja pregado a todos sem distinção, nem todos o ouvem, no sentido bíblico do termo:

Torna insensível o coração deste povo, endurece-lhe os ouvidos e fecha-lhe os olhos, para que não venha ele a ver com os olhos, a ouvir com os ouvidos e a entender com o coração, e se converta, e seja salvo. (Isaías 6:10)
Porque o coração deste povo está endurecido, de mau grado ouviram com os ouvidos e fecharam os olhos; para não suceder que vejam com os olhos, ouçam com os ouvidos, entendam com o coração, se convertam e sejam por mim curados. (Mateus 13:15)

Jesus deixa claro, no Evangelho de João, que nem todos ouvem Sua voz, crêem em Suas palavras e O seguem. E dá a razão disso:

Mas vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas. As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. (João 10:26-28)
Para este o porteiro abre, as ovelhas ouvem a sua voz, ele chama pelo nome as suas próprias ovelhas e as conduz para fora. Depois de fazer sair todas as que lhe pertencem, vai adiante delas, e elas o seguem, porque lhe reconhecem a voz. (João 10:3-4)
Ainda tenho outras ovelhas, não deste aprisco; a mim me convém conduzi-las; elas ouvirão a minha voz; então, haverá um rebanho e um pastor. (João 10:16)
Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora e já chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que a ouvirem viverão. (João 5:25)
Qual a razão por que não compreendeis a minha linguagem? É porque sois incapazes de ouvir a minha palavra. (João 8:43)
Quem é de Deus ouve as palavras de Deus; por isso, não me dais ouvidos, porque não sois de Deus. (João 8:47)

Pelas palavras acima fica claro que nem todos ouvem a voz de Jesus, que aqueles que ouvem é por que são as suas ovelhas e que aqueles que não ouvem, não ouvem porque não são "das minhas ovelhas" e não são "de Deus". Como o ouvir não é uma ação autônoma do homem, mas algo operado por Deus nele, fica claro que Apocalipse 3:20, visto isoladamente, não ensina o livre arbítrio.

Mas, estudar um texto de forma isolada não é uma boa prática de interpretação, pois o todo texto deve ser lido e entendido à luz de seu contexto. E quando colocamos o texto em questão dentro de seu contexto percebemos claramente que ele não é dirigido a descrentes e que, portanto, não é uma passagem evangelística.

O versículo em seu contexto não se refere a evangelismo

Vejamos o contexto bíblico imediato e mediato do texto em consideração:

Ao anjo da igreja em Laodicéia escreve: Estas coisas diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus: Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente.

Quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca; pois dizes: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu.

Aconselho-te que de mim compres ouro refinado pelo fogo para te enriqueceres, vestiduras brancas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez, e colírio para ungires os olhos, a fim de que vejas.

Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso e arrepende-te. Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo.

Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono, assim como também eu venci e me sentei com meu Pai no seu trono. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.. (Apocalipse 3:14-22)

A série de sete cartas são dirigidas não a descrentes, mas aos crentes das igrejas estabelecidas na Ásia:

Dizendo: O que vês escreve em livro e manda às sete igrejas: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodicéia. (Apocalipse 1:11)

Da mesma forma, ao concluir cada carta, há um aviso solene:

Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas. (Apocalipse 3:22)

Todo o texto contido nas cartas apocalípticas se dirigem e se referem à igreja, portanto a crentes. Não é um texto evangelístico no sentido que está falando a pecadores não crentes que precisam abrir a porta de seus corações a Jesus. Se bem que é verdade que as pessoas devem ser instadas a crerem na mensagem do Evangelho e a aceitarem a Jesus, mas o texto em apreço não é um apelo dirigido a quem ainda não se converteu.

A carta em que Jesus diz estar batendo à porta é dirigida ao "anjo da igreja" de Laodicéia, o que creio seja o pastor da igreja. Com isso, a mensagem é dirigida a todos os crentes laodicenses. Jesus é direto ao dizer "conheço as tuas obras" e ao taxá-los de mornos.

Eram crentes autoconfiantes, visto não sentirem falta de coisa alguma, sem perceberem a sua realidade de pobreza espiritual. Apesar disso Jesus os ama e por isso a disciplina seria certa. Conclama-os ao zelo e ao arrependimento. Todas essas palavras deixam claro que Jesus está se dirigindo a crentes e não a descrentes. Pois somente as obras de crentes tem valor gradual, a dos descrentes não tem valor algum, somente os filhos são disciplinados e somente crentes podem ter zelo com as coisas de Deus. Após dirigir essas duras palavras, e no mesmo fôlego, Jesus diz "eis que estou à porta e bato". Não há nada no texto que sugira, nem de longe, que Jesus mudou o destinatário de suas palavras. Ele continua falando com crentes, o que fica claro quando diz, em seguida, "ao vencedor", título somente atribuível aos feitos mais que vencedores por Cristo e pelo aviso solene para ouvir o que o Espírito diz "às igrejas".

Conclusão

A conclusão é que Apocalipse 3:20 não é dirigido a descrentes, mas a uma igreja que, confiante em seus próprios recursos, torna-se independente de Jesus, negando o Seu senhorio, deixando-O, na prática, de fora de seus assuntos. É uma igreja em que Jesus bate à porta, querendo assumir a posição de centralidade que lhe é de direito, como o cabeça da igreja. Concluir que Jesus está batendo à porta do coração de pecadores é fazer uma aplicação, com demasiada liberdade, de um texto fora de seu contexto.

Um texto deve ser compreendido à luz de seu contexto, apoiado sempre por passagens paralelas e em conformidade com o ensino geral das Escrituras, tendo em mente que a revelação bíblica é progressiva.

Assim, a análise isolada de um texto não serve para referendar uma doutrina, exceto quando claramente embasada por outras passagens bíblicas. Mas isto, não é o que ocorre com, o popular e extra-bíblico, livre arbítrio. Não há nas Escrituras uma só passagem que o suporte e mesmo as inferências feitas a partir de passagens como Apocalipse 3:20, após um melhor exame, mostram-se totalmente falhas. Isto por que, ao analisar o texto pressupondo a existência do livre arbítrio, parece que o mesmo é ensinado em tal passagem. Porém posto à prova, o pressuposto mostra-se um equívoco.

Assim, mesmo analisado de forma isolada, Apocalípse 3:20 não ensina nem suporta a filosofia humanista do livre arbítrio. E quando iluminado pelo contexto, tal passagem sequer se refere ou se dirige a não-crentes, mas a crentes mornos que negligenciaram o senhorio de Cristo e desenvolveram um falso senso de autossuficiência.

Texto revisado pelo autor deste blog em 10 de janeiro de 2016

04/01/2016

O Céu e o Inferno (C.H. Spurgeon)

Sermão pregado na noite de terça-feira 4 de Setembro de 1855 Por Charles Haddon Spurgeon ao ar livre em King Edward's Road, Hackney.
(Portal Projeto Spurgeon)

Mas eu vos digo que muitos virão do oriente e do ocidente, e assentar-se-ão à mesa com Abraão, e Isaque, e Jacó, no reino dos céus; e os filhos do reino serão lançados nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes. (Mateus 8:11-12)

02/01/2016

Uma Bênção de Ano Novo (C.H. Spurgeon)

Sermão pregado na manhã de Domingo, 1 de Janeiro de 1860, por Charles Haddon Spurgeon. Em Exeter Hall, Strand, Londres. Via portal Projeto Spurgeon)

Mas o Deus de toda a graça, que nos chamou à sua glória eterna em Jesus Cristo, depois que tenhais padecido um pouco de tempo, ele mesmo os aperfeiçoe, confirme, fortaleça e estabeleça. (1 Pedro 5:10).

O apóstolo Pedro passa da exortação para a oração. Ele sabia que a oração marca o fim da pregação no ouvinte, mas que a pregação do ministro deve ir sempre acompanhada de oração. Havendo exortado os crentes a caminhar com firmeza, dobra os seus joelhos e os encomenda à vigilância zelosa do céu, implorando sobre eles uma das maiores bênçãos que o coração mais afetuoso alguma vez haja suplicado. O ministro de Cristo deve exercer dois ofícios ao povo que está ao seu cargo. Deve lhes falar por Deus e falar a Deus por eles.

O pastor não terá cumprido, todavia, com toda a sua sagrada comissão quando tiver declarado todo o conselho de Deus. Somente terá cumprido uma metade. A outra parte deverá desempenhar em segredo, quando carregar em seu peito, como o sacerdote nos tempos antigos fazia, as necessidades, os pecados, as provações e as súplicas de seu povo diante de Deus. O dever diário do pastor cristão consiste por um lado em orar por seu povo, e por outro em exortar, instruir e consolar a esse povo.

Há, contudo, situações especiais quando o ministro de Cristo se vê constrangido a pronunciar uma bênção incomum sobre seu povo. Quando um ano de tribulação passa e outro ano de misericórdia começa, podemos expressar nossos sinceros agradecimentos por Deus ter nos preservado, e nossas fervorosas súplicas por milhares de bênçãos sobre as cabeças daqueles a quem Deus encomendou debaixo do nosso cuidado pastoral. Esta manhã, tomei este texto como uma bênção de ano novo. Vocês sabem que um ministro da Igreja da Inglaterra sempre me proporciona o tema para o novo ano.

Ele ora muito antes de selecionar o texto, e eu sei que hoje, está oferecendo esta precisa oração por todos vocês. Ele constantemente me favorece com um tema, e sempre considero meu dever pregar sobre ele, e desejar que meu povo o recorde ao longo de todo o ano para que sirva de apoio no tempo de sua tribulação, como um delicioso manjar, como uma bolacha com mel, como o pedaço do alimento de um anjo, que possa pôr sobre a sua língua e levá-lo até que finalize o ano, para logo recomeçar com outro doce texto.

Que bênção maior poderia ter escolhido meu amigo ancião, de pé hoje em seu púlpito, levantando mãos santas para pregar ao povo em uma pacífica igreja camponesa? Que bênção maior poderia implorar ele para os milhares de Israel, que esta bênção que em seu nome pronuncio sobre vocês neste dia: "Mas o Deus de toda a graça, que nos chamou à sua glória eterna em Jesus Cristo, depois que tenhais padecido um pouco de tempo, ele mesmo os aperfeiçoe, confirme, fortaleça e estabeleça. Ao pregar sobre este texto, terei que explicar: primeiro o que o apóstolo pede ao céu; e logo, em segundo lugar por que espera recebê-lo. A razão de sua esperança, de receber o que pede, está contida no título que utiliza para se dirigir ao Senhor seu Deus: "mas o Deus de toda a graça, que nos chamou à sua glória eterna em Jesus Cristo".

  • Então, em primeiro lugar, o que o apóstolo pede para todos aqueles a quem escreveu esta epístola. Ele pede para eles quatro joias resplandecentes colocadas sobre um negro pano de realce.
  • As quatro joias são estas: Perfeição, Confirmação, Fortalecimento e Estabelecimento. O negro pano de realce sobre o qual estão colocadas é este: "Depois que tenhais padecido um pouco de tempo." As lisonjas do mundo valem pouco, pois como observa Chesterfield: "Não custam nada exceto tinta e papel." Devo confessar que creio que inclusive este pequeno gasto é um grande desperdício. As lisonjas mundanas geralmente omitem toda a ideia de aflição. "Um feliz Natal! Um próspero Ano Novo!" Não há nenhuma suposição de algo que se pareça ao padecimento.

    Mas as bênçãos cristãs apontam a verdade dos assuntos. Sabemos que os homens devem padecer. Cremos que os homens nascem para serem acumulados de dores da mesma maneira que a faísca nasce para voar ao alto; e por isso em nossa bênção incluímos o padecimento. E mais, vamos mais além, cremos que nossa tristeza nos ajudará a alcançar a bênção que invocamos sobre nossas cabeças. Nós, no vocabulário de Pedro, dizemos: "Depois que tenhais padecido um pouco de tempo, ele mesmo os aperfeiçoe, confirme, fortaleça e estabeleça".

    Entendam então que, conforme eu mostre cada uma destas quatro joias, devem observá-las e considerar que são desejadas para vocês, "depois que tenhais padecido um pouco de tempo".

    • Agora a primeira joia resplandecente neste diadema é a Perfeição. O apóstolo ora para que Deus nos aperfeiçoe. Certamente, ainda que esta seja uma oração para um longo período de tempo, e a joia seja um diamante de belas águas e de tamanho excepcional, é absolutamente necessário que um cristão em última instância chegue à perfeição.
    • Acaso nunca tiveram um sonho em suas camas, quando seus pensamentos vagavam livremente e a boca de sua imaginação corria sem freio, e sua alma abria suas asas e flutuava por todo o infinito, agrupando coisas estranhas e maravilhosas, de tal maneira que o sonho se desenvolvia em algo como um esplendor sobrenatural? Mas, subitamente foram despertados, e lamentaram durante horas que o sonho não tivesse chegado a uma conclusão.

      E o que é um cristão, que não chega à perfeição, senão um sonho não concluído? Um sonho majestoso de todas as maneiras, e certamente, cheio das coisas que a terra não conheceu antes, porque são reveladas pelo Espírito à carne e ao sangue. Mas suponhamos que a voz do pecado nos espantasse antes que o sonho se concluísse, e como cada um se desperta, perdêssemos a imagem que começou a se formar em nossas mentes, o que seria de nós então? Remorsos eternos e uma multiplicação do tormento eterno seriam o resultado de haver começado a sermos cristãos, se não alcançássemos a perfeição.

      Se pudesse existir tal coisa como um homem em quem se começou a obra da santificação, mas em quem Deus no Espírito cessou de operar; se pudesse existir um ser tão infeliz como para ser chamado pela graça para ser abandonado antes de ser aperfeiçoado, não haveria entre os condenados no inferno desventurado mais infeliz. Não seria uma bênção que Deus começasse a abençoar se não levasse à perfeição. Seria a maior maldição que a ira Onipotente poderia pronunciar: dar para um homem a graça, mas que essa graça não o conduzisse até o fim e não o pusesse com segurança no céu.

      Eu devo confessar que preferiria suportar os tormentos desse terrível arcanjo, Satanás, por toda a eternidade do que ter que sofrer como alguém a quem Deus uma vez amou, mas a quem depois reprovou. Mas isso não acontecerá jamais. A quem uma vez escolheu, Ele não o rejeitará. Sabemos que onde Ele começou uma boa obra, aperfeiçoa-la-á até o dia de Jesus Cristo. Grandiosa é a oração, então, na qual o apóstolo pede que sejamos aperfeiçoados.

      O que seria de um cristão se não fosse aperfeiçoado? Nunca viram um painel sobre o qual a mão do pintor tenha esboçado com atrevido pincel alguma cena maravilhosa de grandeza? Veem onde a viva cor foi pintada com uma habilidade quase sobre-humana. Mas o artista caiu morto repentinamente e a mão que desenhou milagres de arte ficou paralisada e o pincel caiu.

      Acaso não é fonte de lamentos no mundo que alguma vez se tenha começado uma pintura que não pôde jamais ser terminada? Não viram o humano semblante divino em um relevo talhado em mármore? Viram a elegante habilidade do escultor e disseram a vocês mesmos: ‘Isto será algo maravilhoso!’ Que demonstração sem par de habilidade humana! Mas, Ah! Nunca foi completada, não se pôde terminar.

      E poderiam imaginar, qualquer um de vocês, que Deus começará a esculpir um ser perfeito e que não o terminará? Pensam que a mão da sabedoria divina esboçaria o cristão sem completar seus detalhes? Acaso Deus nos tomou da pedreira como uma pedra sem lavrar, e começou a esculpir em nós, e a mostrar Sua arte divina, Sua maravilhosa sabedoria e graça, para logo nos lançar fora? Acaso Deus falhará? Deixará, por acaso, que Suas obras sejam imperfeitas? Leitores, mostrem se podem, algum mundo que Deus haja abandonado sem poder terminar.

      Há alguma partícula em Sua criação na qual Deus tenha começado a construir algo, mas que tenha sido incapaz de concluir? Acaso deixou incompleto algum anjo? Há, por acaso, uma só criatura da qual não se possa dizer: "É muito boa?" E se dirá da criatura formada duas vezes: do eleito de Deus, do comprado com sangue, acaso se dirá: "O Espírito começou a operar no coração deste homem, mas o homem foi mais poderoso que o Espírito, e o pecado venceu a graça; Deus teve que fugir e Satanás triunfou, e o homem nunca foi aperfeiçoado?" Oh, meus queridos irmãos, a oração será ouvida.

      Depois que tenhais padecido um pouco de tempo, Deus os aperfeiçoará, se Ele começou a boa obra em vocês. Mas, amados, deve ser depois que tenham padecido um pouco de tempo. Não poderão ser aperfeiçoados, exceto pelo fogo. Não há outra forma de lhes tirar a sua escória e suas impurezas senão por meio das chamas da fornalha da aflição. Filhos de Deus, vossa insensatez está tão ligada a seus corações, que nada senão a vara pode extirpá-la. É através das marcas de seus ferimentos que seu coração é melhorado.

      Devem passar pela tribulação para que, por meio do Espírito, possa funcionar como fogo purificador para vocês; para que uma vez purificados, santos, acrisolados, e lavados, compareçam diante da face de Deus, isentos de toda imperfeição, e livres de toda corrupção interna.

    • Prossigamos agora para a segunda joia de bênção: Confirmação. Não é suficiente que o cristão tenha recebido um aperfeiçoamento proporcional, se não é confirmado. Vocês já viram um arco-íris no céu quando se faz visível pela planície: suas cores são gloriosas e suas nuances são excepcionais.
    • Ainda que o tenhamos visto muitíssimas vezes, nunca deixa de ser "algo belíssimo e um gozo constante." Mas que lástima do arco-íris, não está confirmado. Se desvanece e aqui já não está. As belas cores cedem passo às nuvens carregadas e a abóbada celeste já não brilha com as tinturas do céu. Não está confirmado. Como pode ser isto? Algo que está feito de raios passageiros do sol e gotas instáveis da chuva, como poderia permanecer? E fixem nisto, quanto mais bela é a visão, mais desconsolada é a reflexão quando essa visão se desvanece, e não fica nada senão escuridão.

      Então, ser confirmado é algo extremamente desejável para o cristão. De todas as concepções conhecidas de Deus, junto ao Seu Filho encarnado, não duvido em pronunciar ao cristão a mais nobre concepção de Deus. Mas se esta concepção fosse apenas um arco-íris pintado na nuvem, para depois desaparecer para sempre, não valeria nada o dia em que nossos olhos foram atraídos para ver o inatingível, como uma sublime visão que logo se vai derreter. O cristão não é melhor que a flor do campo, que hoje está e que se seca quando se levanta o sol com calor abrasador, a menos que Deus o confirme.

      Qual é a diferença entre o herdeiro do céu, o filho de Deus comprado com sangue, e a erva do campo? Oh, que Deus lhes outorgue esta rica bênção, para que não sejam como o fumo de uma chaminé, que é rapidamente dispersado pelo vento: que sua bondade não seja como a nuvem da manhã, nem como o orvalho temporão que se evapora; mas que sejam confirmados, e que cada bem que tenham seja um bem permanente. Que seu carácter não seja como as letras escritas sobre areia, mas uma inscrição na rocha.

      Que sua fé não seja como "a urdidura sem marco de uma visão," mas que esteja construída com material de pedra que aguentará esse horrível incêndio que consumirá a madeira, o feno e a ninhada do hipócrita. Que estejamos cimentados e arraigados no amor, que suas convicções sejam profundas. Que seu amor seja real. Que seus desejos sejam sinceros. Que sua vida inteira esteja estabelecida, fixada e confirmada, para que todos os fortes ventos do inferno e todas as tormentas da terra sejam incapazes de lhes perturbar.

      Vocês sabem que consideramos que alguns cristãos estão bem confirmados há muito tempo. Tenho temor, na verdade, que hajam muitos que são velhos, mas que não tenham sido confirmados. Uma coisa é ter o cabelo branco pelos anos, mas outra coisa muito diferente é que obtenhamos sabedoria. Há alguns que não se tornam mais sábios apesar de toda a sua experiência. Ainda que seus dedos estejam bem cobertos pela experiência, não aprenderam nessa escola.

      Sei que há muitos velhos cristãos que podem dizer de si mesmos, e dizê-lo também com muita tristeza, que gostariam de voltar a ter suas oportunidades, para poder aprender mais, e poder estar mais confirmados. Nós o ouvimos cantar: "Descubro que sou um aprendiz, todavia, Incapaz, débil e pronto para errar." Sem dúvidas, eu oro para que a bênção do apóstolo seja derramada em nós, independentemente que sejamos jovens ou velhos, mas especialmente naqueles que têm conhecido por muito tempo o seu Senhor e Salvador. Vocês não devem estar sujeitos agora a essas dúvidas que maltratam os bebês na graça.

      Não se lhes deve estar ensinando sempre os primeiros rudimentos: devem prosseguir para algo mais elevado. Estão se aproximando do céu; oh, a que se deve que não tenham chegado, todavia, a terra prometida, a essa terra que mana leite e mel? Certamente suas titubeações não combinam com os cabelos grisalhos. Dá a impressão que foram branqueando com a luz do sol do céu.

      Como é possível que seus olhos não dispensem algo dessa luz? Nós que somos jovens buscamos um exemplo em vocês, que são cristãos bem confirmados; e se os vemos duvidar, e os ouvimos falando com lábios temerosos, então nos abatemos em alto degrau. Oramos por nós e por vocês, para que esta bênção se cumpra em vocês, para que possam ser confirmados. Para que não se exercitem mais na dúvida. Para que conheçam seus interesses em Cristo. Para que se sintam seguros Nele. Para que descansando na rocha das eras possam saber que não perecerão enquanto estiverem fixados ali.

      De fato oramos por todos, independentemente de sua idade, para que nossa esperança esteja posta unicamente no sangue e na justiça de Jesus, e que esteja tão firmemente arraigada, que não seja sacudida jamais, senão que sejamos como o monte Sião, inabalável e que permanece para sempre. Desta maneira, tenho explicado sobre a segunda joia desta bênção. Mas, lembrem-se, não podemos obtê-la senão depois de haver padecido um pouco de tempo. Não podemos ser confirmados exceto por meio do padecimento.

      É inútil esperar que estejamos bem arraigados sem que os ventos de Março não tenham soprado sobre nossas cabeças. Não esperemos que o jovem carvalho lance suas raízes tão profundamente como o carvalho velho. Esses velhos laços nas raízes, essas estranhas quebras dos galhos, todos falam das muitas tormentas que açoitaram a antiga árvore. Mas são indicadores também das profundezas a que se submergiram as raízes; e todos dizem ao lenhador que espere partir primeiro uma montanha que arrancar esse carvalho de raízes. Devemos padecer um pouco de tempo, para logo sermos confirmados.

    • Agora vamos comentar a terceira bênção, que é o Fortalecimento. Ah, irmãos, esta é uma bênção muito necessária para todos os cristãos. Há alguns que parecem estar fixados e confirmados. Mas, todavia, carecem de força e de vigor. Permitam-me lhes dar um retrato de um cristão sem forças? Ali o têm. Ele tem apoiado a causa do Rei Jesus. Vestiu-se com sua armadura; alistou-se no exército celestial. Podem observá-lo? Está perfeitamente armado da cabeça aos pés, e leva consigo o escudo da fé. Podem ver também quão firmemente está confirmado? Mantém seu lugar, e não será movido dali.
    • Mas, vejam-no, Quando usa sua espada, golpeia com pouquíssima força. Seu escudo, ainda que o sustenha tão firmemente como sua debilidade o permita, treme em seu punho. Ali está e não se moverá. Sem dúvidas, quão oscilante é a sua posição. Seus joelhos se chocam com espanto quando ouve o som e o ruído da guerra e do tumulto. Do que precisa este homem? Sua vontade é correta, e seu coração está posto plenamente nas coisas boas. O que precisa? Necessita força. O pobre homem é fraco e se assemelha a uma criança.

      Seja porque foi alimentado com comida mal temperada e insubstancial, ou por conta de algum pecado que o perseguiu, não tem força nem a vitalidade que deveria habitar um cristão. Mas uma vez que a oração de Pedro seja respondida para ele, quão forte se tornará. Em todo o mundo não há uma criatura tão forte como um cristão quando Deus está com ele. Fale de Behemot! Não é nada senão algo muito pequeno. Seu poder é fraqueza quando se lhe compara ao crente. Fale de Leviatan! Que faz que o abismo seja branco! Ele não é o chefe dos caminhos de Deus. O verdadeiro crente é mais poderoso que ele.

      Nunca viram o cristão quando Deus está com ele? Cheira a batalha desde longe, e clama em meio do tumulto: "Vamos! Vamos! Vamos!" Se ri de todas as hostes inimigas. Ou se compara com Leviatan: se é arrojado em um mar em tribulação, dá chicotadas por todos os lados e faz que o abismo se torne branco com bênçãos. As profundezas não lhe surpreendem, nem teme as rochas; tem a proteção de Deus ao seu redor, e as águas não podem sufocá-lo; e mais, tornam-se um elemento de deleite para ele, quando pela graça de Deus se regozija em meio das altas ondas.

      Se querem uma prova da força de um cristão, somente têm que revisar a história, e poderão ver como os crentes apagaram a violência do fogo, fecharam as bocas dos leões, agitaram os punhos diante da pavorosa morte, se riram até do desprezo dos tiranos, e puseram em fuga aos exércitos inimigos, por meio do poder superior da fé em Deus. Rogo a Deus, meus irmãos, que lhes fortaleça este ano. Os cristãos desta época são pessoas fracas. É algo notável que agora a grande maioria dos filhos nasce débil. Vocês me pedem as evidências disto. Posso fornecê-las de imediato.

      Vocês sabem que a Liturgia da Igreja da Inglaterra instrui e ordena que todos os filhos sejam submersos no batismo, exceto aqueles que tenham uma débil condição certificada. Agora, seria pouco compassivo imaginar que as pessoas sejam culpadas de falsidade quando cumprem o que consideram uma ordenança sagrada; e, portanto, como quase todos os filhos são agora borrifados e não submersos, eu suponho que todos nascem fracos. Não vou dizer que isso explica o fato de que todos os cristãos sejam tão débeis, mas é certo que não temos muitos gigantes cristãos em nossos dias.

      Por aqui e por ali ouvimos de alguém, ao que somente lhe faz falta operar milagres nestes tempos modernos, e ficamos atônitos. Oh, que vocês tivessem fé como estes homens! Não creio que haja mais piedade agora do que se procurava ter nos dias dos puritanos. Creio que há muito mais homens piedosos; mas enquanto a quantidade se multiplicou, temo que a qualidade tenha sido desprezada. Naqueles dias o ribeiro da graça era na verdade muito profundo.

      Alguns daqueles velhos puritanos (quando lemos sobre sua devoção e sobre as horas que passaram em oração) pareciam ter tanta graça como qualquer centena de nós. O ribeiro era muito profundo. Mas agora as margens perderam sua forma e grandes pastagens foram inundadas pela água. Até ali vamos bem. Mas ainda que a superfície tenha se expandido, temo que a profundidade tenha diminuído espantosamente. E esta pode ser a explicação: que devido a que nossa piedade se tornou mais superficial, nossa força se debilitou.

      Oh, que Deus lhes fortaleça este ano! Mas recordem, se Ele o fizer, então terão que padecer. "Depois que tenhais padecido um pouco de tempo," que Ele lhes fortaleça. Às vezes, fazem uma operação nos cavalos que alguém consideraria cruel: os cauterizam para fortalecer seus tendões. Agora, cada cristão antes que seja fortalecido deve ser cauterizado. Seus nervos e seus tendões devem ser fortificados com o ferro incandescente da aflição. Nunca serás forte em graça, a menos que primeiro padeças um pouco de tempo.

    • E agora me referirei à última das quatro bênçãos: "Estabelecimento. Não direi que esta última bênção é maior que as outras três, mas é um degrau para cada uma delas; e é estranho dizê-lo, é muitas vezes o resultado da obtenção gradual das três bênçãos precedentes. "Estabelece-te!" Oh, quantos andam por aí que não se estabeleceram jamais. A árvore que é transplantada a cada semana morrerá rapidamente. E mais, se fosse trocada, não importa quão habilmente, uma vez ao ano, nenhum jardineiro esperaria fruto dela. Quantos cristãos existem que estão sendo transplantados constantemente, inclusive quanto aos seus sentimentos doutrinários.
    • Há alguns que creem segundo o último pregador; e há outros que não sabem em quê creem, mas creem em quase tudo o que lhes falam. O espírito de caridade cristã, tão cultivado nestes dias, e que todos amamos tanto, tem ajudado, temo, a trazer ao mundo uma espécie de latitudinarismo 1 ; ou em outras palavras, os homens têm chegado a crer que não importa no que creiam; que ainda que um ministro diga é assim, e o outro diga não é assim, sem dúvida os dois estão corretos; que ainda que nos contradigamos absolutamente um ao outro, apesar disso, ambos temos razão.

      Eu não sei onde fabricaram o juízo aos homens, mas ao meu parecer, sempre se considera impossível crer em uma contradição. Não posso entender nunca como sentimentos tão contrários possam ser conformados à Palavra de Deus, que é a norma da verdade. Mas há alguns que são como um campanário sobre a torre de uma igreja, pois se voltam para onde sopre o vento. Como disse o bom senhor Whitefield: "seria mais fácil medir a lua para vesti-la, que identificar seus pensamentos doutrinários," pois sempre estão variando e sempre estão trocando.

      Agora, eu rogo que vocês sejam livrados disto, se é essa a vossa debilidade, e que possam ser estabelecidos. Que a intolerância seja arremessada para longe de nós. Sem dúvida, eu desejo que o cristão saiba o que considera que é verdade e logo o sustente. Tomem seu tempo para examinar a controvérsia, mas uma vez que tenham decidido, que não sejam convencidos 1 Latitudinarianismo – foi um movimento de parte da Igreja Anglicana de alguns clérigos no século 18, que defendiam a tolerância religiosa e sustentou um meio termo entre o dogmatismo religioso e o ceticismo com facilidade.

      Seja Deus verdadeiro, ainda que todo homem seja mentiroso; e sustenham que o que esteja de acordo com a Palavra de Deus um dia, não pode ser contrário a ela outro dia; que o que foi certo na época de Lutero e na época de Calvino deve ser certo agora; que as falsidades podem variar, pois têm uma aparência multiforme; mas a verdade é uma, é indivisível e para sempre a mesma. Que outros pensem o que quiserem. Concedam maior latitude aos demais, mas vocês não se permitam a nenhuma falsidade.

      Permaneçam firmes e inabaláveis segundo lhes foi ensinado, e sempre busquem o espírito do apóstolo Paulo, "se alguém ensina um evangelho diferente do que haveis recebido, seja anátema". Sem dúvida, como quero que estejam firmes em sua doutrina, minha oração é que estejam especialmente estabelecidos em vossa fé. Vocês creem em Jesus Cristo, o Filho de Deus, e descansam Nele. Mas algumas vezes vacilam; então perdem o seu gozo e consolo.

      Eu peço para que sua fé esteja estabelecida, que nunca duvidem se Cristo é vosso ou não, mas que digam confiadamente: "Eu sei em quem tenho crido, e estou seguro que é poderoso para guardar o meu depósito". Oro para que estejam estabelecidos em vossas metas e propósitos. Há muitas pessoas cristãs que têm uma ideia muito boa em suas cabeças, mas nunca a implementam, porque perguntam ao amigo qual é a sua opinião. "Não é grande coisa," responde. Claro que não. Quem tem em alta opinião as ideias dos outros? E de imediato, a pessoa que a concebeu renuncia a ela, e a obra nunca se completa.

      Quantos homens em seus ministérios começaram a pregar o Evangelho, e permitiram que algum membro da igreja, possivelmente algum diácono, incitasse-lhe a orelha levando-o um pouco por essa direção. Mais tarde, algum outro irmão considerou conveniente incitá-lo em direção contrária. O homem perdeu o seu brio. Nunca se estabeleceu quanto ao que devia fazer; e agora se converteu em um simples lacaio, esperando a opinião de cada um, desejoso de adotar o que outros concebem que é o correto. Agora, peço-lhes que estejam estabelecidos em suas metas. Vejam qual é o lugar que Deus quer que ocupem.

      Parem ali, não saiam apesar de todas as zombarias que tenham que suportar. Se creem que Deus lhes chamou para uma obra, façam-na. Se os homens lhes ajudam, agradeçam-nos. Se não lhes ajudam, digam-lhes que se apartem de seu caminho ou serão atropelados. Que nada os intimide. Quem quiser servir ao seu Deus deve estar preparado algumas vezes a servir-Lhe sozinho. Nem sempre lutaremos em meio às fileiras.

      Há momentos nos quais os Davis do Senhor devem pelejar sozinhos com os Golias, e devem tomar consigo cinco pedras do riacho em meio ao escárnio de seus irmãos, e contudo, com suas armas, eles estarão confiantes na vitória pela fé em Deus. Não permitam que lhes tirem da obra na qual Deus os pôs. Não se cansem de fazer o bem, pois ao seu devido tempo, colherão se não desfalecerem. Estejam estabelecidos. Oh, que Deus derrame esta rica bênção em vós. Mas não estarão estabelecidos a menos que padeçam. Padecendo, ficarão em sua fé e estabelecidos em suas metas.

      Os homens são animais invertebrados nestes dias. Não contamos com os homens resistentes que sabem que têm razão e a sustentam. Ainda quando um homem esteja equivocado, alguém verdadeiramente admira sua retidão quando se levanta crendo que possui a razão e se atreve a enfrentar as ameaças do mundo. Mas quando um homem tem a razão, o pior que lhe pode ocorrer é que seja inconstante, que vacile, que os homens o intimidem. Lança isso para longe de você, cavaleiro da santa Cruz, e seja firme se quer sair vitorioso.

      O coração desfalecente jamais tomou de assalto nenhuma cidade, e você nunca vencerá nem será coroado de honra, se teu coração não se endurecer frente a cada investida e se não está estabelecido em sua intenção de honrar ao seu Senhor e de ganhar a coroa. Desta maneira, termino de explicar a bênção.

  • Agora, peço-lhes vossa atenção por mais alguns momentos, para observar as razões pelas quais o apóstolo esperava que esta oração fosse ouvida. Ele pedia que fossem aperfeiçoados, confirmados, fortalecidos e estabelecidos. Incredulidade sussurrou ao ouvido de Pedro: "Pedro, pedes demasiado.
  • Sempre foste teimoso. Tu disseste: ‘Manda que eu vá a ti sobre as águas.’ Certamente que este é outro exemplo da tua presunção. Se tivesses dito: ‘Senhor, santifica-me,’ não teria sido uma oração suficiente? Não pediste demasiado?" "Não," disse Pedro; e respondeu para a Incredulidade: "estou seguro que receberei o que tenho pedido; pois em primeiro lugar estou pedindo ao Deus de toda a graça: o Deus de toda graça. Não somente o Deus das pequenas graças recebidas, senão o Deus da grandiosa graça ilimitada que está armazenada para nós na promessa, mas que, todavia, não temos recebido em nossa experiência. "O Deus de toda graça;" da graça que revive, que convence, que perdoa, que crê, o Deus de toda graça que consola, apoia e sustêm. Certamente, quando viermos a Ele, não poderemos vir pedindo demasiado.

    Se Ele é o Deus, não de uma graça, senão de todas as graças; se Nele está armazenada provisão infinita, ilimitada, inacabável, como poderíamos pedir demasiado, ainda que peçamos que cheguemos a ser perfeitos? Crente, quando estiver de joelhos, lembre-se que está indo até um Rei. Que suas petições sejam grandes. Imite o exemplo de um cortesão de Alexandre, o Grande, que quando se lhe disse que podia receber o que pedisse como recompensa por seu valor, pediu uma soma de dinheiro tão grande que o tesoureiro de Alexandre recusou entregá-la sem falar primeiro com o monarca.

    Quando viu o monarca, este sorriu e lhe disse: "Em verdade é demasiado isso que pedes, mas não é demasiado para que Alexandre lhe conceda. Admiro-o por sua fé em mim; entregue-lhe tudo o que pedir".

    Atrever-me-ei a pedir que meu temperamento colérico me seja tirado, que minha rebeldia seja extirpada e minhas imperfeições sejam cobertas? Posso pedir ser semelhante a Adão no jardim, não, mais ainda, tão puro e perfeito como o próprio Deus? Posso pedir que um dia caminhe pelas ruas de ouro, e "cingido com as vestes do meu Salvador, santo como o santo," estar no pleno brilho da glória de Deus, e clamar: "Quem acusará aos escolhidos de Deus?" Sim, posso solicitá-lo e o terei, pois Ele é o Deus de toda graça.

    Olhem novamente o texto, e vejam outra razão pela qual Pedro sabia que sua oração seria ouvida: "Mas o Deus de toda graça, que nos chamou." Incredulidade poderia ter dito a Pedro: "Ah, Pedro, é verdade que Deus é o Deus de toda graça, mas Ele é uma fonte fechada, como águas seladas." "Ah," disse Pedro, "venha aqui, Satanás; não saboreias as coisas de Deus. Não é uma fonte selada de toda a graça, pois já começou a fluir." "Mas o Deus de toda a graça, que nos chamou". O chamado é a primeira gota de misericórdia que caiu nos lábios sedentos do moribundo.

    O chamado é o primeiro anel de ouro da corrente de eternas misericórdias. Não o primeiro em ordem de tempo com Deus, senão o primeiro em ordem de tempo conosco. O primeiro que conhecemos de Cristo em Sua misericórdia, é o que Ele clama: "Vinde a mim todos que estais cansados e sobrecarregados," e que por meio de Seu doce Espírito se dirige a nós, de tal forma que obedecemos ao chamado e viemos a Ele.

    Agora observem, se Deus me chamou, posso pedir-lhe que me confirme e guarde; posso pedir-lhe que conforme transcorram os anos, minha piedade não se apague; posso pedir que a sarça arda, mas que não se consuma, que a panela de farinha não escasseie e a vasilha de azeite não diminua. Atrever-me-ei a pedir que até a última hora de vida possa ser fiel a Deus, porque Deus é fiel comigo? Sim, posso pedir, e também o obterei: porque o Deus que chama dá o repouso. "Porque aos que antes conheceu, também os predestinou...

    E aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a estes também justificou; e aos que justificou, a estes também glorificou". Pensa em teu chamado, cristão, e tenha ânimo: "Porque irrevogáveis são os dons e o chamado de Deus". Se Ele te chamou, nunca se arrependerá do que fez, nem cessará de abençoar e nem cessará de salvar. Mas creio que há uma razão ainda mais poderosa: "Mas o Deus de toda a graça, que nos chamou à sua glória eterna." Querido leitor, Deus te chamou? Sabes para quê te chamou? Primeiro te chamou a casa da convição, de onde te fez sentir teu pecado.

    Logo te chamou ao cimo do Calvário, de onde viste realmente teu pecado expiado e teu perdão selado com o sangue precioso. E agora Ele te chama. E de onde te chama? Ouço uma voz hoje: a incredulidade me diz que há uma voz que está me chamando para as ondas do Jordão. Oh, incredulidade! É verdade que minha alma tem que caminhar através das ondas tormentosas desse mar. Mas a voz provém das profundezas da tumba, provém da glória eterna.

    Ali onde Jeová se senta resplandecente em Seu trono, rodeado de querubins e serafins, desde o brilho que os anjos não se atrevem a olhar, escuto uma voz: "Venha a Mim, pecador lavado com o sangue, venha à Minha glória eterna. Oh, céus! Não é este um maravilhoso chamado? Ser chamado à glória, chamado às ruas brilhantes e às portas de pérolas, ser chamado a ouvir as harpas e hinos de felicidade eterna, e ainda melhor, ser chamado ao peito de Jesus, chamado a ver a face de Seu Pai, chamado não à glória eterna, senão à Sua glória eterna, chamado a essa mesma glória e honra com as quais Deus se cercou para sempre.

E agora amados, é demasiado grande qualquer oração depois disto? Deus me chamou ao céu, e há algo na terra que Ele me negue? Se Ele me chamou para morar no céu, acaso não é necessária a perfeição para mim? Por isso, não posso pedi-la? Se Ele me chamou à glória, não é necessário que eu seja fortalecido para combater em meu caminho até lá? Acaso não posso pedir para ser fortificado? E mais, se há na terra uma misericórdia demasiadamente grande para que pense nela, demasiadamente grande para ser concebida, demasiadamente pesada para que minha língua a leve diante do trono em oração, Ele fará por mim muitíssimo mais abundantemente do que o que eu possa pedir, ou que possa alguma vez imaginar.

Sei que o fará, pois me chamou à Sua glória eterna. A última razão, pela qual o apóstolo esperava que sua bênção fosse derramada, é esta: "Que nos chamou à sua glória eterna em Jesus Cristo". É um fato singular que nenhuma promessa seja tão doce para o crente como aquela na qual o nome de Cristo é mencionado. Se tenho que pregar um sermão de consolo para cristãos deprimidos, nunca escolheria um texto que não me permitisse guiar a pessoa deprimida até a cruz.

Não lhes parece demasiado, irmãos e irmãs, neste dia, que o Deus de toda graça seja seu Deus? Acaso não ultrapassa a vossa fé, que Ele efetivamente os haja chamado? Não se perguntam, às vezes, se em verdade foram chamados? Quando pensam na glória eterna, surge a pergunta: "Eu a gozarei alguma vez? Alguma vez verei a face de Deus com aceitação?" Oh amados, quando ouvem de Cristo, quando sabem que Sua graça vem por meio de Cristo, e o chamado através de Cristo, e a glória por meio de Cristo, então dizem: "Senhor, posso crer agora, se é por meio de Jesus Cristo".

Não é difícil crer que o sangue de Cristo fora suficiente para comprar todas as bênçãos para mim. Se eu vou ao tesouro de Deus sem Cristo, temo pedir qualquer coisa, mas quando Cristo está comigo, então posso pedir-Lhe tudo. Com certeza creio que Ele o merece ainda que eu não o mereça. Se posso argumentar Seus méritos, então não tenho medo de suplicar. Acaso a perfeição é uma bênção demasiadamente grande para que Deus a dê a Cristo? Oh, não.

Guardar a estabilidade e a preservação dos comprados com o sangue, é, acaso, uma recompensa demasiadamente grande para as terríveis agonias e sofrimentos do Salvador? Não o creio. Então podemos suplicar com confiança, porque tudo vem a nós por meio de Cristo. Para concluir, quero fazer este comentário. Desejo, meus irmãos e irmãs, que durante este ano possam viver mais perto de Cristo do que tenham vivido antes. Estejam convencidos disto: quando pensamos muito em Cristo é quando pensamos menos em nós mesmo, em nossas aflições, e nas dúvidas e temores que nos assediam.

Comecem a fazer isto neste dia, e que Deus lhes ajude. Não permitam que passe nenhum dia sobre vossas cabeças, sem uma visita ao jardim do Getsêmani e à cruz do Calvário. E quanto a alguns de vocês que não são salvos, e conheceram o Redentor, Deus quer que venham a Cristo neste mesmo dia. Atrevo-me a dizer que vocês creem que vir a Cristo é algo terrível: que necessitam estar preparados antes que possam vir; que Ele será duro e rigoroso convosco.

Quando os homens têm que ir ao advogado, podem tremer; quando têm que visitar o médico, podem sentir temor; ainda que ambos os tipos de profissionais não sejam bem-vindos, em muitas ocasiões são necessários. Mas quando vierem a Cristo, podem vir com ousadia. Não precisam pagar honorários; não é necessário preparação. Podem vir tal como são. Martinho Lutero fez um comentário cheio de valor quando disse: "eu correria aos braços de Cristo, ainda que tivesse uma espada desembainhada em Sua mão." Agora, Ele não tem uma espada desembainhada, senão que tem Suas feridas nas mãos.

Corra aos Seus braços, pobre pecador. "Oh," tu perguntas: "posso vir?" Como podes fazer esta pergunta? Se te ordena vir. O grande mandamento do Evangelho é: "Crê no Senhor Jesus Cristo." Os que desobedecem este mandamento, desobedecem a Deus. É tão mandamento de Deus que o homem creia em Cristo, como o é que devemos amar a nosso próximo. Agora, como é um mandamento, eu tenho certamente o direito de obedecê-lo. Vocês podem ver que não há nenhuma dúvida; um pecador tem a liberdade de crer em Cristo porque lhe foi dito que o faça. Deus não lhe teria dito que fizesse algo que não devas fazer.

Se te permite que creias. "Oh," dirá alguém, "isso é tudo o que necessito saber. Eu creio que Cristo pode salvar perpetuamente. Posso descansar minha alma nele, e dizer que me submerja ou nada: bendito Jesus, Tu és o meu Senhor?" Dizes: Posso fazê-lo? Homem, se te manda que o faças! Oh, que possas fazê-lo. Lembre-se, nisto não está arriscando nada. O risco está em não fazê-lo. Arroja-te em Cristo, pecador. Descarte qualquer outra dependência e descanse unicamente nele. "Não," dirá alguém, "eu não estou preparado." Preparado, amigo? Então não me entendeste.

Não é necessária nenhuma preparação; se trata de vir simplesmente como és. "Oh, não sinto minha necessidade o suficiente." Eu sei que não. Mas, o que isso tem a ver? Se te ordena que te lances em Cristo. Não importa quão negro ou quão mau seja, confia nele. O que crê em Cristo será salvo, ainda que seus pecados sejam muitos; o que não crê será condenado, ainda que seus pecados sejam poucos. O grande mandamento do Evangelho é: "Crê." "Oh," alguém dirá, "devo dizer que Cristo morreu por mim?" Ah, eu não disse isso, tu o saberás logo.

Essa pergunta não tem nada que ver contigo agora, teu assunto é crer em Cristo e confiar nele; arrojar-te em Seus braços. E que o Deus Espírito te conduza suavemente agora para que o faças. Agora, pecador, aparta as tuas mãos de tua justiça própria. Abandona toda ideia de tornar-te melhor por meio de tuas próprias forças. Se deixe levar pela promessa. Diga: "Ainda que não tenha nenhum argumento, Exceto que Teu sangue foi derramado por mim, E que me ordenas a vir a Ti; Oh, Cordeiro de Deus! Eu venho, eu venho." Não podes confiar em Cristo para descobrir depois que te enganaste.

Agora, tenho me expressado com clareza? Se tiver aqui um grupo de pessoas endividadas, e se eu dissesse: "se vocês me confiarem suas dívidas, serão pagas, e nenhum credor os molestará adiante," me entenderiam claramente. Como é que não podem entender que confiar em Cristo eliminará todas as vossas dívidas, removerá todos os vossos pecados, e serão salvos eternamente? Oh, Espírito do Deus vivo, abra o entendimento para recebê-lo, e o coração para obedecê-lo, e que muitas almas se lancem sobre Cristo.

Sobre todos eles, assim como em todos os crentes, eu pronuncio a bênção, com a qual os despedirei: "Mas o Deus de toda a graça, que nos chamou à sua glória eterna em Jesus Cristo, depois que tenhais padecido um pouco de tempo, ele mesmo os aperfeiçoe, confirme, fortaleça e estabeleça!". Amém.